A fragilidade na rede de apoio e a ausência de ação estatal, apesar dos repetidos pedidos de socorro, culminaram em mais um trágico feminicídio em Pernambuco. Priscila Carla Pimentel, de 32 anos, foi brutalmente assassinada a facadas pelo ex-marido, José Robson Santos da Silva, de 34 anos, em Cajueiro Seco, Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, na tarde da última terça-feira (9). O caso de Priscila expõe a alarmante vulnerabilidade das mulheres vítimas de violência doméstica, cujos alertas são muitas vezes ignorados até que a tragédia se concretize.
De acordo com familiares, Priscila e José Robson viveram juntos por 17 anos. Contudo, há cerca de três meses, Priscila decidiu pôr fim ao relacionamento devido às constantes brigas e ameaças que sofria. Apesar de ter registrado boletins de ocorrência e solicitado uma medida protetiva de urgência, a assistência esperada por parte da polícia não se efetivou a tempo de prevenir o crime. Essa inação sublinha uma falha crítica no sistema de proteção às vítimas.
O assassinato ocorreu quando Priscila se dirigiu à casa da ex-sogra para buscar materiais para a formatura de sua filha. Testemunhas relataram que ela foi surpreendida pelo ex-marido, que a atacou com uma faca. A irmã da vítima, Paloma Pimentel, expressou a dor e a impotência da família em entrevista à TV Jornal:
"Esse homem vivia na frente da casa da minha mãe ameaçando todo mundo. Infelizmente, a gente esperava [o crime]. Quando ela ligava [pedindo socorro], eu e minha mãe chegávamos antes. Mas dessa vez, ele foi mais rápido."
O horror do crime foi ainda maior, pois uma das filhas de Priscila com o suspeito, de apenas 14 anos, presenciou o ataque e tentou intervir para salvar a mãe. Uma parente, que preferiu não se identificar, relatou o desespero da jovem:
"Ele ameaçava muito ela [Priscila]. A filha ainda disse: 'Tentei salvar minha mãe, mas ele tem muita força. Não consegui'."
Após o feminicídio, José Robson Santos da Silva foi detido e encaminhado ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), no bairro do Cordeiro, Zona Oeste do Recife, onde foi autuado em flagrante. Nesta quarta-feira (10), ele seguiu para audiência de custódia. A Polícia Civil, por meio de nota, confirmou o registro do caso pela equipe de Força Tarefa de Homicídios Metropolitana Sul e informou que o autor está à disposição da justiça.
Priscila Carla Pimentel, mãe de seis filhos – cinco deles com o agressor –, tinha o sonho de se tornar técnica em enfermagem. Para sustentar a família e custear a formatura da filha, ela trabalhava catando recicláveis e limpando mariscos e sururus, um testemunho de sua dedicação e esforço em busca de um futuro melhor para seus filhos.
Feminicídios Crescem em Pernambuco: Um Cenário Preocupante
O caso de Priscila não é isolado, inserindo-se em um contexto alarmante de crescimento dos feminicídios em Pernambuco. Dados da Secretaria de Defesa Social (SDS) revelam que, entre janeiro e novembro de 2025, 82 mulheres foram vítimas desse crime, um aumento significativo de 20,5% em comparação com as 68 vítimas registradas no mesmo período do ano anterior.
Em resposta a esses números, a SDS informou que as ações da Patrulha Maria da Penha, da Polícia Militar, foram intensificadas na gestão atual. A secretaria divulgou que:
- Desde 2023, a patrulha acompanhou 14.672 mulheres com Medidas Protetivas de Urgência (MPUs).
- Foram realizadas 63.084 diligências entre 2024 e 2025.
- Somente em 2025, 3.802 mulheres ingressaram no programa, com 20.725 atendimentos realizados.
Como Buscar Ajuda: Canais de Apoio para Vítimas de Violência Doméstica
É fundamental que vítimas de violência doméstica saibam onde procurar ajuda. Os canais de apoio e proteção são cruciais para romper o ciclo de violência:
- Polícia Militar (190): Em caso de emergência ou violência iminente, acione imediatamente o número 190.
- Ouvidoria da Secretaria da Mulher de Pernambuco (0800.281.8187): Para orientações sobre a rede de proteção e suporte.
- Medida Protetiva Eletrônica (portal.tjpe.jus.br): O Tribunal de Justiça de Pernambuco oferece uma ferramenta online para solicitar medida protetiva de urgência sem a necessidade de ir a uma delegacia ou contratar um advogado. Na página inicial do site, procure o ícone "Medida Protetiva Eletrônica" e clique em "Iniciar Atendimento". A resposta do juiz ou juíza à solicitação será enviada para o número de celular cadastrado em até 48 horas.
A conscientização e a ação conjunta da sociedade e do Estado são essenciais para garantir que a história de Priscila Carla Pimentel não se repita e que mais mulheres possam viver livres de violência.