A chocante história de Fernanda* (nome fictício), uma dentista de 24 anos, veio à tona por meio de uma carta detalhada enviada à Banda B. No relato, ela descreve as 12 horas de terror, tortura, agressões psicológicas e abusos sexuais que sofreu nas mãos de seu então companheiro em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, e sua fuga desesperada que provavelmente salvou sua vida.
A carta foi divulgada no sábado (13), apenas dois dias após o agressor ser detido. Ele foi preso por tentativa de feminicídio, estupro de vulnerável, tortura, lesão corporal, ameaça e registro não autorizado de intimidade sexual, evidenciando a gravidade e a multiplicidade dos crimes cometidos.
Os Horrores da Violência Recorrente
A Polícia Civil informou que Fernanda procurou a corporação após um episódio brutal em 7 de dezembro. Na ocasião, ela foi mantida em cárcere privado e torturada por cerca de 12 horas, sofrendo socos, chutes, puxões de cabelo, chineladas, injúrias e ameaças de morte. A sessão de tortura só cessou quando ela conseguiu escapar da residência, um ato de coragem que, segundo ela, impediu um feminicídio.
Este não foi um incidente isolado. Fernanda já havia sido violentada e espancada nos dias 3 e 4 de dezembro. Em um dos ataques, sua cabeça foi arremessada contra um espelho, resultando em perda temporária da visão e audição do lado direito. Em 11 de novembro, outro episódio de tortura incluiu abuso sexual e a destruição de todo o seu material de trabalho, um ataque direto à sua profissão e independência.
“Trabalhamos diariamente para responsabilizar autores de violência contra a mulher. Este caso demonstra a importância das denúncias e o empenho da nossa equipe em interromper ciclos de agressão e proteger as vítimas,” destacou o delegado Lucas Maia.
Diante da brutalidade dos crimes, a Polícia Civil solicitou a prisão preventiva do agressor, que foi prontamente autorizada pela Justiça. No momento da prisão, anabolizantes e munições de arma de fogo foram encontrados com o suspeito, resultando em uma autuação em flagrante. Ele permanece detido.
"Uma Barbárie Sem Tamanho", Diz Advogada
Em entrevista à Banda B, a advogada Sonia Marta Pinto, que representa Fernanda, classificou o caso como "extremamente bárbaro".
“Esse caso é extremamente bárbaro, de uma barbárie sem tamanho. O acusado mantinha a Fernanda em constante violência, não só física, mas também psicológica,” afirmou a advogada.
Sonia Marta Pinto revelou que Fernanda foi submetida a múltiplos episódios de tortura, incluindo agressões tão severas que chegaram a arrancar unhas do pé. As ameaças se estendiam aos familiares da jovem, como seu pai e sua mãe, aumentando o pavor e a sensação de impotência da vítima.
Com a prisão preventiva já decretada, a advogada agora atua como assistente de acusação no processo criminal. “Vou atuar como assistente de acusação e vamos buscar a condenação por estupro e tentativa de feminicídio. Ela era constantemente violentada. Ele batia, dopava e estuprava. Em alguns casos, ela estava inconsciente por conta de medicamentos que era obrigada a tomar,” explicou.
A Carta Íntegra da Dentista Sobrevivente: O Grito Por Justiça
“A violência chegou de forma silenciosa, disfarçada de cuidado, de preocupação, de controle. Quando eu percebi, já tinha me destruído: destruído meu psicológico, minha autoestima, meu corpo, meus sonhos, minha vida.
No início, ele se mostrava o homem perfeito, cuidadoso, ciumento, mas protetor. Tudo era por proteção, até começarem as brigas e as proibições. Proibições de usar roupas. Eu só podia ir treinar tendo que tapar o corpo com uma blusa.
Proibições de postar fotos minhas no Instagram. Em seguida, ele começou a cortar minhas roupas e colocar fogo. Ameaçava que, até o final do ano, eu ficaria sem roupas no guarda-roupa.
Em outra briga, quebrou a penteadeira, o secador, e aí veio o primeiro tapa. Foi um único tapa. No dia seguinte, ele pediu desculpa e eu acreditei que iria mudar, mas só piorou.
As agressões começaram a ser constantes. Ele discutia e sempre escondia o controle do portão e a chave do carro para que eu não pudesse sair. Ficava com meu celular para que eu não conseguisse ligar para a polícia. Eu não tinha saída. Ele me ameaçava muito. Me batia muito.
No dia 11/11, ele já acordou discutindo. Eu fui trabalhar e ele ficou me ligando o dia inteiro, ameaçando ir até a clínica, e foi. Ficou lá na frente, depois foi embora. À noite, me buscou, chegou derrapando o carro e, quando chegamos em casa, começaram as agressões.
Ele me tirou do carro pelos cabelos, me bateu em cada cômodo da casa, me apagou. Voltei desesperada pedindo água. Ele jogou água gelada em mim, rasgou toda a minha roupa, me levou para cima e me colocou para tomar banho gelado com o cronômetro ligado.
Foram 20 minutos de banho gelado de madrugada, com ele segurando um ventilador em mim e me batendo: socos, tapas, cuspes. Eu estava desesperada, pedia para ele parar, mas ele batia mais. Eu estava toda roxa. Eu ia morrer.
Ele me tirou do banheiro e mandou eu ir deitar. Eu orava e clamava muito para Deus. Achei que tinha acabado, mas ele voltou.
Ele subiu em cima de mim na cama, impossibilitando minha defesa. Minha cara ficou exposta e ele bateu muito: soco, cabeçada, tapa. Minha boca, meu nariz e minha orelha começaram a sangrar. Com o rosto cheio de sangue, ele me pediu para tirar a roupa, ficar em posição de quatro apoios e começou a abusar.
Depois, ele foi dormir e me deixou no quarto de visitas. Quando acordei no outro dia e abri os olhos, eu não enxergava nada. Entrei em desespero. Minha visão demorou três dias para voltar ao normal. Eu sentia muita tontura.
Ele implorou perdão, dizia que iria mudar, que não iria mais fazer isso. Eu queria sair o quanto antes, mas não conseguia. Ele monitorava tudo. Toda semana aconteciam agressões e ameaças. Eu reclamava pra ele referente à minha visão e sobre sentir muita tontura. Ele comprou um medicamento pra labirintite e me fazia tomar. Eu reclamava por não conseguir abrir a boca direito por conta da minha mandíbula, e ele não falava nada.
Na quarta-feira, dia 03/12, ele ficou bravo por uma postagem que fiz no Instagram enquanto atendia na clínica. Fui agredida novamente. Na quinta, dia 04/12, também.
No domingo, dia 07/12, acordei, fiz café e ele já começou a discussão e as agressões. Ele ficou o dia inteiro me batendo: tapas, chutes, golpes com uma caneca, puxões de cabelo, batia minha cabeça no espelho. Ele sempre me ameaçava muito, ameaçava matar meu pai e meu irmão. Eu tinha muito medo.
Ele me bateu das 9h da manhã até perto das 19h, quando consegui fugir. No fim do dia, reclamei que estava surda do ouvido direito de tanto soco. Ele me entregou comprimidos: zolpidem e relaxante muscular.
Tomei o relaxante muscular e fingi tomar os outros. Joguei no chão e empurrei com o pé. Ele perguntou se eu tinha tomado e eu disse que sim.
Então subimos pro quarto. Ele achou que eu iria apagar. Deitei. Ele me agrediu mais um pouco e foi pro banheiro tomar banho. Foi nessa hora que consegui fugir.
Saí correndo, consegui pegar o carro e o controle do portão e fui até a casa do meu pai, onde acionamos a polícia. Acredito que, se eu não tivesse fugido, não estaria com vida hoje
Quero agradecer ao delegado Lucas Maia e espero que a justiça seja feita.”
O relato de Fernanda é um testemunho pungente da violência de gênero e da importância crucial da denúncia. A Banda B optou por usar um nome fictício para a vítima, a fim de preservar sua identidade e integridade.