Poliane França Gomes, advogada conhecida no submundo do crime como "Rainha do Sul", foi presa em uma operação da Polícia Civil da Bahia, acusada de ser uma das mulheres mais perigosas do Nordeste. A suspeita é apontada como a principal elo entre uma das maiores facções da região e seu líder, que, mesmo detido há mais de uma década, continuava a comandar as atividades criminosas de dentro da prisão.
O Chefe da Facção e a Estratégia de Comando
Leandro da Conceição Santos Fonseca, líder da temida facção Bonde do Maluco, está atrás das grades desde 2013. Contudo, até o ano de 2024, ele mantinha controle sobre o grupo, utilizando um celular clandestino. Com sua transferência para um regime disciplinar diferenciado, em uma cela isolada no presídio de segurança máxima da Serrinha, a 183 quilômetros de Salvador, Leandro perdeu seu acesso privilegiado à comunicação.
Foi nesse cenário que Poliane França Gomes, inicialmente como sua advogada, assumiu um papel crucial. Ela se tornou a intermediária, transmitindo ordens, ameaças e orientações estratégicas da facção. Sua atuação era fundamental para garantir que Leandro mantivesse sua liderança, mesmo em isolamento total.
Ameaças de Morte e o Apelido 'Rainha do Sul'
As investigações da Polícia Civil interceptaram mensagens alarmantes, nas quais Poliane transmitia ameaças diretas a integrantes que falhavam em cumprir as determinações do chefe. Em uma das comunicações, ela dizia:
"Vou começar a matar pra essas desgraças pagarem".Em outra, a advogada reforçava a gravidade das exigências:
"E pode avisar que quem não começar a pagar, vai pagar com a vida".
Dentro da organização criminosa, Poliane fazia questão de ser chamada de RS, uma abreviação para seu codinome, "Rainha do Sul". Esse apelido não é por acaso; é uma clara referência à série mexicana "La Reina del Sur", cuja protagonista é uma narcotraficante que comanda poderosos cartéis no México, um espelho da ambição e poder que Poliane almejava.
De Advogada a Companheira: A Trama por Trás das Grades
Assim como na ficção que a inspirou, Poliane não apenas atuou profissionalmente, mas também se envolveu amorosamente com Leandro da Conceição Santos Fonseca. O chefe do Bonde do Maluco responde a mais de 70 processos por crimes como homicídio, associação criminosa e tráfico de drogas. Para facilitar a comunicação e o repasse de ordens, Poliane alterou seu cadastro de visitas na prisão, passando de "advogada" para "companheira".
Essa mudança estratégica garantiu-lhe o direito a visitas íntimas mais longas, que se tornaram o principal canal para Leandro ditar suas ordens aos demais membros da facção. O delegado Thiago Machado revelou a extensão da influência da "Rainha do Sul":
"Ele acabava determinando que fosse entregue fuzis, armas, jóias e ouro para a Rainha do Sul".
Somente entre junho e agosto de 2025, as autoridades registraram 16 visitas de Poliane a Leandro, um número que chamou a atenção e levou ao monitoramento intensivo. No final do mês passado, ela foi um dos alvos principais de uma operação que desmantelou o braço financeiro do Bonde do Maluco, resultando na prisão de outros 14 integrantes.
O Império Financeiro Desvendado
Na residência da advogada, a polícia encontrou evidências concretas do relacionamento e da união estável entre Poliane e Leandro.
"Foi encontrado um documento da realização de união estável entre ela e o investigado", informou o delegado.Além disso, foram apreendidas cartas escritas por Leandro e endereçadas à quadrilha, entregues à advogada durante as visitas na cadeia.
A magnitude do poder econômico da facção, gerenciado em parte por Poliane, ficou evidente com as apreensões: joias avaliadas em mais de R$ 1 milhão, carros de luxo, uma moto aquática, uma máquina de contar dinheiro e R$ 190 mil em espécie. As autoridades também solicitaram o bloqueio de 26 contas bancárias ligadas ao bando, com um potencial de apreensão que supera os R$ 100 milhões.
A investigação revelou ainda que um haras em Pernambuco era utilizado para a lavagem de dinheiro, por meio da compra e venda de cavalos de alto valor, consolidando o sofisticado esquema financeiro da facção.
Apesar das contundentes evidências apresentadas pela Polícia Civil, a defesa de Poliane França Gomes negou todas as acusações em declaração à TV Globo, afirmando que "os fatos serão devidamente esclarecidos no momento oportuno". Os advogados de Leandro da Conceição Santos Fonseca também refutaram as acusações imputadas pela polícia.